quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Espumas de mar


Sim, sim.
Aquelas mãos me empurram do balanço
que antes restava parado ao som do vento.
E do marrom subo ao céu perene
que no vai-e-vem desaparece dos olhos
mas nunca sai de dentro.

Aquelas palavras que pareciam frear
na verdade impulsionavam
estalavam dedos que salpicavam sangue
manchavam de doce o meu dia-a-dia

É do ímpeto daquela boca rubra
da intensidade que derrama do corpo
que vem a fonte nascida pelo meio
e agarrada por mim como
garoto que abraça correntezas,
dilui certezas

A vontade é de correr atrás
escutar a música sem parar mais
Abrir botões sob o sol
e sentir as mãos dadas
ao mesmo tempo abertas
para mundo que não pára,
só deságua, deságua, deságua

Sem ponto, só cortes, pequenas mortes.
ladeiras de renascimento
que trazem consigo plenitude
carregadas de vazios macios
E uma chuva repentina
ou beijo adormecido daqueles,
junto deles, sopro de vida no topo.
Insignificante e arrebatadora.

Cá estamos, com olheiras
na ilha do universo a ser descoberto
Como mãos de criança
em espuma de mar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Asas cortadas do sertão




Estrada deserta e casas vazias denunciavam a chegada do sol ápice, vagarosamente cortando ao meio aquele céu aberto e entregue de Caucaia. O que se via de movimento humano eram pés fora das redes armadas em alpendres brancos e silenciosos. Moscas voavam tontas pelos corpos, enquanto algumas televisões chiavam dentro de quartos. Calangos procuravam sombra, nem que fosse em buracos de terra quente. Ninguém podia deter o assobio de calor que trazia duas horas de preguiça farta.

O cenário é acordado por um carro prata, feito bala de revólver repentino, que chega reduzindo a velocidade e fugindo da pista, levantando consigo os corpos das redes e lençóis de poeira marrom.  Descem do carro três rapazes que já ostentam no corpo a marca de fora. Ninguém ali ousaria usar calça jeans àquela hora. Eles traziam consigo, além do ar aprazível, ar-condicionado misturado ao gás carbônico e soberbo. 

- Boa tarde, senhor. - Boa, dotô.

Explicam meia hora de palavras bonitas e deixam escapar na ponta da língua uma estranha menina de nome hidrelétrica. Deu pra entender que ela só vai trazer coisa boa. Isso é certo. Nóis ganha Emprego e ainda a irmã mais querida, uma tal dignidade. Essa sim, o sinhô Deuzim ouviu repetirem umas três ou quatro vezes com sorriso no rosto. Amarelo e forte. Como se fosse presente nunca antes visto naquelas terras.

- Coca-cola ou suco de acerola?

As histórias saem fáceis como o suor da testa. Conta dois litros de vida em quinze minutos. Os rapazes sentam, gostam, gozam. De lado até o galo campina preso na gaiola começou a cantar. Seu Deuzim abriu asas e sentou. Voou dali e nunca mais voltou.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Maresia

Da varanda, sonhei que era criança. E sorria na praia sem os pequenos dentes da frente, despreocupado com outros olhos. O que me dava medo eram aquelas ondas que arrebentavam pertinho da areia e dos pés. Eu corria em zigue-zague tentando salvar das espumas o pequeno corpo seco. Mas sempre num certo momento jogava tudo que segurava em minhas mãos, fossem búzios, conchas ou plásticos, e adentrava de olhos fechados aquele caminho molhado. As mãos e o peito aberto para o salpicar daquela vontade. Apenas enganava o mar antes de abraçá-lo com gosto de entrega.

Bem longe daquele lugar uma pequena menina também se aventurava naquele grande pedaço azul. Morando à beira da praia, parecia que todos os dias ao dormir ela pegava ventos delicados de desejo. Eram aqueles mais azuis e fortes, que causavam calafrios. Aquilo tudo foi juntando-se nela como uma maresia ao corpo. Mas esta maresia que ela recebia pousava na pele e parecia emitir ressonâncias irreparáveis do lado de dentro. Ao mesmo tempo que ferrugem, seu peito pegou delicadeza. Acometeu-se de sensibilidade. Um toque no ombro era cuidado, qualquer mão nos cabelos era bem querer e todo abraço era entrega. Seus olhos pareciam abastecidos de todo aquele sal.

Sem saber que no mesmo atlântico lavavam seus rostos e mergulhavam seus sorrisos, em praias diferentes eles pegavam exatamente as mesmas ondas. E se abasteciam ao mesmo tempo em que deixavam a pele cada vez mais intensa e frágil para enfrentar o mundo.

Cresceram e mesmo vestidos nunca deixavam totalmente encobertas as marcas daquela pele frágil, sensibilidade latente. Então numa certa tarde, cruzaram corredores opostos. Ela com uma mochila pesada que nunca comportava todas as suas vontades e ele com os cabelos sempre assanhados, pois nunca fechava as janelas. Na noite seguinte, faziam parte da mesma multidão. Deslocavam-se e não se encontravam, apesar de atravessar os mesmos lugares e pararem para conversar e sorrir com as mesmas pessoas. Mas num breve momento, daqueles como suspiros, suas mãos deixaram-se tocar em meio a todas aquelas pessoas e ele inconscientemente levantou o dedo indicador, acariciando as costas das mãos daquela menina.

Aquele gesto bastou para perceberem a mesma maresia. Podiam remar em direções opostas, nadar contra a maré ou deixar-se levar por correntezas diferentes, mas essa maresia que carregavam no peito era a mesma e isso nunca mais iria separá-los, quaisquer que fossem os caminhos a seguir ou país em que escolhessem morar. Independente de território ou momentos iguais se encontrariam para sempre por ressonância, em acordes musicais. O lugar seria a pele e o tempo do peito reinaria. Forte feito maresia.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Varanda vaga-lume



Chovia da janela de velhos prédios no centro da cidade.
Chovia nos cabelos do homem que morava na rua.
Chovia no telhado das casas de praia.
Chovia nas notícias dos amigos.
Só não chovia em sua varanda.

Lá o céu restava nublado, com estrelas fortes.
A lua se escondia, mas deixava luz.
Pequenos pontos na esquina acendiam e apagavam,
como vaga-lumes que insistiam em piscar.
E nada de orvalhos nas plantas da varanda.

Esperou, esperou e respirou.
Fechou os olhos, fundo e devagar.
Quando os abriu, junto do corpo
Sentiu por dentro, gotas em silêncio.
Era seu peito em dilúvio, naquela varanda seca.

Deixou-se molhar até amanhecer.






sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tanto Afeto

    Cometera um erro há muito tempo. Se pode ou não ser considerado erro, não se sabe. Apenas o acompanha desde os primeiros passos de caminhada em vias de mão dupla. Naquelas auto-estradas doces, sempre cometia excessos. Tudo que saía de seus poros pareciam abscessos rompidos que estouravam e se alastravam por ombros, peitos e pessoas. De ponta a ponta transbordava-os de desejos, de forças.
    E em muitos braços não cabia tanto afeto. Tanto olho atento, tantas veias abertas, tanto mar esparramado. Então afastar-se e sentar nas dunas altas era uma precaução, cuidado de mãos cerradas. Num mesmo movimento de pernas caminhando em retorno, o mar se retraía como numa fuga. Como um peito que se esconde tentando pegar todo o ar do mundo. As águas retornavam deixando espumas e distantes se fortaleciam cada vez mais, pra depois quebrar, estourar, assim como mar que arrebenta.
    Daquelas bocas que se abrem por razão dos poros estarem todos juntos e também abertos, dissemina olhos fechados de entrega. Afasta-te apenas um pouco pra poder perceber a imensidão que nos envolve. E não te esqueças disso. Que a luta está dentro de cada grão de areia que a água cobre, pouco a pouco. Mesmo distante não deixe de sentir a febre desse mar. Num vai-e-vem, se quiseres, ele nunca vai secar. Nunca quer cessar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Nosso mar

O que ficou para trás
O que nos resta ainda mais?

Aquela poesia vermelha
no papel amarelado
Enterrada na gaveta da família
agora escondia também
Destinos. Vencidos. Além.
Mas outros nascem fortes,
ainda bem.

Eles se foram, ela me foi
a coisa mais bonita
desses últimos anos
vividos como dia-a-dia,
bem-te-vi  raiar.

Eles revisitam, respingam
Pisam de novo,
O novo chão.
Removem poeiras,
Afastam as teias
Entre veias e coração.

Trazem bombons de caramelo,
Pérolas de açúcar e saudade.
Lembranças de bolsos fundos,
Carinhos com estampa de avião.

A boca rica de café
e o cheiro de cloro da manhã
na piscina azul e branca
emergem tempos,
em sentimentos por segundo.

E agora em estradas recapeadas
De desejos na pele de flor,
De olhos bem abertos,
De braços mais abertos

Deitados e entregues
nesse imenso asfalto de febre.
Mãos nas costas dançam leves,
tirando o peso das horas.

A ansiedade pelo tempo,
Trouxe você.
E esqueceu pelo caminho
O medo que
queriam nos impor.

Cantamos então que
Amar e mudar as coisas
mesmo sentindo dor,
nos interessam mais.

Ondas de vida


Hoje acordei já com o sol bem no meio do céu, ainda descansando da madrugada entre músicas e papéis espalhados na cama. E em plena segunda-feira com ares de domingo, ruas sem carro e o som de passarinhos imperando sobre tudo lá fora, eu escuto o jornal falando do dia da padroeira da cidade; Nossa Senhora da Assunção nas Igrejas e Iemanjá nas areias da praia.

Pego o carro e sigo sozinho ao litoral, pois o mar me chamava. Chego à Praia já no fim de tarde, o sol começando a se esconder no lado oposto ao mar, deixando aquele aspecto de azul manso no céu. Começo a andar pela praia, à procura de alguém de branco, sinal dos filhos de santo. Ando, ando, molhando meus pés na água forte da maré alta e enfim avisto uma saia de renda enfeitando as pernas de uma velha senhora. Percebendo ela ir embora, com seu ramalhete de flores brancas molhadas, sigo o caminho inverso, à procura do fim da celebração.

Aos poucos vou encontrando à beira do mar pequenas oferendas: flores brancas, estátuas, garrafas de champagne. Bons sinais. A maré alta parecia diminuir, abrindo meus caminhos. Nesse instante imaginei você caminhando ao meu lado, nossas mãos dadas. Olhares carinhosos ao mar. Ele sempre me faz lembrar você. Mais a frente um aglomerado de pessoas e batuques começam a ecoar no vento e chegam ao peito. Sorriso no rosto.

A primeira imagem que tenho é de um homem todo de branco, ajoelhado de frente ao mar, com os olhos fechados e as mãos erguidas, a sussurrar palavras ao ouvido de Iemanjá. Me junto em meio à multidão e observo a cantoria, palmas e cumprimentos, ombro à ombro. Crianças, homens, mulheres, cachorros, velhos, pessoas montadas em bicicletas e cavalos assistem à celebração.

Depois de um tempo, com o sol já escondido e o céu escurecendo, me viro ao mar. Pé molhados, respiração funda e olhos cheios da mesma água salgada. O vento nesse momento parece bater mais forte e água se inquieta, me trazendo ao corpo arrepios e boas energias. Respiro novamente fundo e volto ao circulo de tambores intensos. Tiro algumas fotos do entorno, do mar naquele momento, mas não da festa, que me parecia intocável naquele momento.

Num determinado instante a roda se abre um pouco e eu avisto uma velha senhora negra, com uma pequena e delicada criança, de poucos meses, dormindo calma em seu ombro. Enquanto dançava a velha senhora parecia embalar os sonhos daquela pequena delicadeza, que tinha o rosto mais sereno de todo o mundo. Quando a música parou um instante, a senhora se virou devagar e começou a caminhar em direção ao mar. Dois rapazes levantaram respeitosamente a grossa corda de isolamento da roda de cantoria e ela se abaixou sem deixar mover qualquer centímetro a pequena em seus braços.
Chegou à beira do mar e parou. Nesse momento eu tive à minha frente a fotos mais linda que eu poderia tirar, com qualquer câmera que tivesse às mãos. Aquela pequena cabeça recostada no ombro da mãe negra, porto-seguro forte, e olhinhos fechados como se estivera deitada nas nuvens mais aconchegantes. Nuvens de renda. A mãe também com os olhos fechados, repletos de lágrimas e força, enquanto os lábios se movimentavam rapidamente, em orações e pedidos de proteção à pequena e sua longa caminhada, direcionados à Iemanjá, rainha de todos esses mares, bonitos e revoltos.
Porém nenhuma imagem poderia chegar perto de todas as sensações que envolviam aquele momento, de tudo o que ele significava.

A intensidade e a força não poderiam ser enquadradas, nem encaixotadas, nem fixadas em papel algum. Ao invés de empunhar a câmera, a pus de volta no bolso e passei a olhar. Apenas olhar e sentir. Ele viveria dissolvido em minha memória, como as espumas naquela maré. Como um fluxo, andaria em cada poro do meu corpo com a grandeza e intensidade daquele Mar sem fim. Que horizonte algum poderia pôr limite. Ele me encarava, encantador e assustador. Cheio de segredos ao seu redor, os quais eu só poderia descobrir mergulhando de olhos fechados como o daquela criança. Com a confiança dos braços daquela senhora. E com aquelas lágrimas de dor. E de amor. Que as ondas nunca deixariam de trazer.

domingo, 15 de maio de 2011

Sem precisar


Nosso melhor momento
é o abraço querendo beijo.
Sussurrou ao ouvido.
E sem beijar, sentiu.
Sobre os lábios
o céu pousar.

Mel de maio
Maiô sem laço
Maior detalhe de todos.

Intenso afeto escorre do braço
e deságua no mar imenso
que esse mundo traz.
E lava sem precisar limpar.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Entre sonhos



Eu venho das estradas negras de sabor. A cada metro elas me contavam segredos sobre mim e sobre o mundo. Ao fechar os olhos e degustar a solidão, fiz-me cada vez mais forte, multidão. Mas as lacunas frágeis continuavam lá, pois mesmo a maresia mais doce nos desgasta um tempo ou outro. Naquelas pequenas cadeiras vazias, naquela rede folgada. Ferrugem no peito.

Com a escuridão, no entanto, aprendi a tatear. Sentir todas as partes do corpo, os poros, sinais, suor, feridas, calor. Escutei a respiração, aquela mesma que ao correr acelerada revelava a fragilidade humana. Senti o abraço mais nítido de todos durante aquele apagão que tomou léguas e escureceu o quarteirão dentro de mim. Aquele mesmo que nunca deixei de percorrer, pois a cada esquina encontrava novas mãos, fossem erguidas ou estendidas. Caminhos de linhas tortas.

Sentado pensei em quanta raiva joguei ao mar, nos momentos em que deveria tê-las posto a navegar, nos mais alvoroçados mares, naqueles braços de mar que me levavam. Faltaram-me roxidão no olhos, marcas no corpo, queimadura na pele? Não. A saliva que expelia da boca estava numa outra língua, que poucos conseguiam traduzir. As lutas, os gritos e fúrias se manifestavam de outra forma. A ligação com aqueles personagens infames mostrava a subversão que o redemoinho pretendia alcançar. Homens dormindo sob viadutos, mulheres seminuas nas esquinas, bêbados sentados na calçada. Eram todos parte de sua família. Faziam companhia e parte de sua luta, poética e podre. Delicada e cruel. Essenciais para o despertar da indignação. Pequenas pedras de revolução. Desfaziam-se dentro de minhas veias, erguendo pêlos e ímpeto. Estava lá, mais latente do que nunca, com os olhos fechados, mas de ouvidos sempre atentos. Enquanto todos aplaudiam o elenco no palco principal, atrás das cortinas nós segurávamos uma corda forte, despercebida e silenciosa, mas também imprescindível.

Se hoje a dúvida me toma o coração e persegue meu cruzar de braços racional, ela será bem recebida, pois traz consigo múltiplas possibilidades. No deserto tenho quantos caminhos quiser traçar, tantos ventos como quiser recebê-los. Se me aflijo, pois não sinto dedos entre os meus, penso naqueles que estão sempre resguardando meu coração. Inverno ou verão.

Aquele sussurro que me aconselha firme talvez se equilibre em corda bamba. A experiência dessas travessias me diz que não devo negar um sentimento. Ele é como água em nossas mãos, como sol que adentra celas com a mesma intensidade. Não viro as costas para ele, então. Mas seu rosto se espalhou, como pintura derretida caminhando pelo chão. Toda aquela terra foi pintada com cores mais fortes, arte bruta misturada às outras da paixão. Percebera então que o quadro não precisaria ser mais seu. A fotografia dos olhos continuava na pequena e delicada caixa preta, guardada no bolso frouxo da calça que mais gostava. O sentimento transformou-se em negativos. Queria a latência, não mais revelação. Nesse tempo ansioso e suspenso, a imagem não cessava de correr todos os riscos, todos os sonhos. À flor da pele, sem papel ou tinta, colecionava memórias. E assim nascia outro sol, sem a lua se pôr, sem a despedida das estrelas.

A visão em cima da caixa-d´água, a companhia que mesmo em silêncio resolve qualquer dor, o abraço sobre a mesa, a bicicleta sem freios, o almoço em beira de estrada, o mapa aberto no retrovisor, a varanda da rua de calçamento, as pedras sob o mar, o navio encalhado, o suor abastecido, o sorriso que não sabe dançar.

Álbuns se acumulam no peito, aonde o vento nunca parou de soprar.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Quantos sóis

Messias havia caído naquela lama, após tropeçar em algumas raízes escondidas no labirinto verde. O franzino menino de nome vigoroso abria os olhos, enquanto uma mão se estendia procurando ajudá-lo. Era um menino que nem ele, só que de olhos mais puxados, pele escura e cabelos esguios. Falava uma mistura de português, espanhol e outras palavras que Messias não conseguia identificar, mas achava muito bonito.

Ele então se levantou ainda sujo e seguiu aquele desconhecido que tinha ares de amizade para sempre. Conhecia cada árvore, cada bicho e cada buraco daquela terra. Corria assim como Messias fazia descalço nos asfaltos de domingo pela manhã, ou como se estivera descendo uma ladeira de bicicleta, com os olhos fechados e o coração sem freios.

Só em correr junto, já sentia uma cumplicidade única. Chegaram a um campo de barro, com traves sem redes e começaram ao mesmo tempo um jogo sem bola. Dribles magníficos, passes mágicos e desejos de chutar com força de rasgar o mundo.

Depois se embrenharam na mata de novo e passaram dias. Correndo, se cortando, sorrindo, levantando outros que caíam, jogando, gritando. Os pés confundiam-se com as raízes que antes tropeçavam e agora tinham a cor de folhas secas. O corpo verde, a cabeça da cor de céu. Não queriam reduzir toda aquela potência de vida às mesmas e velhas questões de sempre, trancadas dentro de casa. Precisavam era dar vazão àquela energia latente que emanava de cada poro. Queriam mesmo era fechar os olhos e mesmo assim continuar enxergando nitidamente aquele maravilhoso sol de todas as cores.


© etnofoco

sábado, 25 de dezembro de 2010

Por isso




Hoje, como ontem e amanhã, te escrevi cartas com açúcar e com afeto. O carteiro as carregava entre cobranças, desejos de boas festas e cartões de crédito. Tocava a campainha e vagarosamente empurrava-as por baixo da porta. Elas deslizavam serenas e se recostavam ao pé da tua parede de azulejos azuis e brancos.

Como não obtinha respostas, alguém podia imaginar que elas se acumulavam, encharcavam-se na chuva e depois se tornavam secas e pálidas com o calor do sol. Mas não. Meu terceiro olho me apontava imagens daquela tua varanda, sempre que eu aportava em formato retangular. Você abaixava-se e ao ver aquela letra torta e feia, sorria silenciosamente. Deixava todas as propagandas na mesa da sala e me levava ao quarto. Daquele teu jeito, rasgava delicadamente cada centímetro do papel. Nesse breve momento, onde quer que eu estivesse, um vento passava e me atingia, me refrescando e acariciando. Eram os ventos que me faziam fechar os olhos.

Ouvia tudo que eu tinha pra te dizer e com uma lágrima querendo cair, levantava-se. Abria a gaveta e com força tentava enfiar-me juntos aos outros tantos eus. Abarrotada a gaveta quase suspirava ao rodar da pequena chave. O vento então se abrandava e eu abria os olhos, continuando a caminhada. Refeito, percebi então que eu queria ventos e não respostas.

Por isso, escrevia.

domingo, 21 de novembro de 2010


O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
[Manoel de Barros]

sábado, 20 de novembro de 2010


Só a alma atormentada pode trazer para a voz um
formato de pássaro. [Manoel de Barros]

sábado, 13 de novembro de 2010

Roda Gigante


Delicada, como pés de bailarina. Ao fim do espetáculo exibia apenas para si - sua mais exigente platéia - atrás das cortinas negras, os calos endurecidos e o sangue que escorria pelo calcanhar. Mal sabia que ao longe as mãos que aplaudiam mais forte aqueles passos, eram as mesmas que chegariam ao seu corpo no instante de qualquer queda. Sentado na primeira fileira, mas ainda distante dos holofotes, seu sorriso entrava em cena. Apesar de todos os tropeços e abismos, fora o primeiro a chegar e de lá nunca saiu. Permaneceu sentado ao pé do palco. Dançava junto, com olhos fechados, pois dentro do peito o espetáculo não tem fim. Segundo ato. Novos atores, novos passos. E no bolso da camisa um lenço embebido em água salgada, que aos poucos secava, tornando-se agora mais uma peça da armadura. A roda-gigante voltava a funcionar e de cima já se sentia o cheiro de café. Lá o vento é mais forte, onde nenhum concreto o impede de passar. Aquele barulho de velocidade com janela aberta deixava surdos os ouvidos para qualquer grito de aviso. Nenhuma queda o impediria de querer subir cada vez mais. Como fumaça, desfazendo-se ao sabor dos ventos, o cinza agora se confundia com imensidão azul. Saindo do túnel levanta o rosto para enfrentar a multidão. Olé.

sábado, 23 de outubro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Retratos da Memória


“No dia que você quiser lembrar de mim, dá uma olhada no retratinho que a gente tirou junto. Eu digo isso porque tenho medo que um dia você também me esqueça.” (Dora, Central do Brasil)

Os olhos de Dorinha e de Josué enchiam-se de lágrimas, assim como o sorriso enchia-se de satisfação, fazendo tudo transbordar. Junto com os olhos deles, os meus. Aos 12 anos de idade via aquela grande aventura de uma senhora e um menino, com uma atenção sublime, propiciada pela delicadeza da professora Gorete, que exibiu para nós um dos primeiros filmes que me fez arrepiar. Era brasileiro, era uma descoberta.

Revendo tais imagens, agora elas tomam ainda mais força, pois carregam consigo um pedaço de mim. Todas aquelas sensações vem à tona, junto com muitas outras que fui acumulando ao longo das experiências latentes, expostos nas telas e pele. Elas então explodem como calafrios de boas memórias.

Agora Josué correndo atrás do ônibus, afoito, também me remetia à João acelerando sua moto atrás do ônibus de Hermila. As cartas sendo lidas por Dorinha, com suas palavras inventadas para agradar Josué, me lembram o apreço que criei por cartas e vinis. Cartola cantando ao fim, fazia surgir, para mim, um outro ponto final, marcante.

Eles se reencontram sempre no retrato que haviam tirado ao lado de Padre Cícero. Ali, naquela pequena imagem congelada, eles se tocam quando quiserem: podem tirar um ao outro de uma gaveta, do quadro na parede, assanhar a poeira dos cabelos e de repente trazê-lo para os braços, num abraço repentinamente divino.
Se imagens são palavras que nos faltaram, fotografias como essa são a melhor poesia que se pode escutar, deliciar, sentindo cada verso recitado doce ao pé do ouvido.


Outro texto perdido pelas pastas do velho computador. Foi feito no ímpeto de um arrepio, assistindo ao Canal Brasil. Escrito em 18 de abril de 2010.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Terra molhada


Homing Ship. Foto de André Kertész, 1944.

O Barco é imantado para meus olhos e cérebro de ferro. Mesmo quando durmo, ele navega, invadindo o território de sonhos. É ele quem consegue atravessar esses dois mundos e atracar no inconsciente, de forma branda. Sem que eu perceba, ele está lá me sussurrando baixo para embarcar.
Por fora é bonito e forte, mas os botes salva-vidas me alertam que a segurança não é total, como nada na vida. Nada. É que às vezes flashs ingênuos nos passam a cabeça e fazem com que nos joguemos. Faz parte do jogo. Parte.
Temos listras vermelhas e brancas por todo o corpo, como ele já demonstrava em seu nome: alvirrubro. Algumas palavras assopram em meus ouvidos dizendo para não embarcar. Quando olho pros lados apenas espelhos me cumprimentam. Reflexos que me apontam o medo, o cuidado e um passo atrás. A imagem mais forte, no entanto, parece ser da poesia que se ocupa em minha mente. Ela parece carregar um espelho espesso e mais forte, erguido em frente à minha alma.
Então viajo e se for preciso levanto as velas, retiro a âncora cravada em meu corpo e tomo o leme em minhas mãos. Com medo, mas com vento. Vento que seca o suor de minha face como leves carinhos infantis e me impulsiona para a linha azul e tênue, entre o céu e o mar. O mar bravio incita tempestades seguidas de calmarias. Se ficasse apenas na terra nenhuma das duas coisas se apresentaria. Então, por mais que o barco balançasse e subisse em ondas enormes, carregando a espinha de calafrios, a calmaria se fazia em olhares. Em dedos e cabelos. Corpo inteiro.
Estarei preparado. Se cair, ao invés de procurar, desesperado, a superfície, mergulho e abro os olhos para aquele ambiente marinho e silencioso. Lá no fundo não piso a terra, mas acaricio-a com minhas mãos. Embebida em água salgada, passada, és mais doce e tenaz.

Escrito em 14 de Julho. Encontrado e finalizado hoje, 15 de setembro.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Nos braços do tempo



Em terra estrangeira nosso dinheiro não serve para se alimentar. Mas e se já vivo há muito tempo conhecendo a terra por todos as suas entranhas, me sentindo como árvore nela plantada? Existem problemas que nem mesmo quem lá brotou pode resolver, pois essa terra também procura fertilidade. Mas de uma coisa estou certo: Caminharei por todo seu interior e meu suor pingará naquele chão. E por isso não será apenas água que a fará crescer, mas o adubo do meu sal escondido, que carrego como uma tempestade querendo furar o peito. E todos poderão ver e sentir o gosto do fruto nos braços do tempo.

domingo, 20 de junho de 2010

Doce voz ao homem-bomba



Tadeu gostava de perceber as flores que nasciam no caminho, enquanto corria. Notava mais ainda aquelas que surgiam nos mais difíceis cantos de concreto, nos lugares distantes, em viagens ou visitas. Muitas plantas bonitas, no entanto, se enfraqueciam na varanda de sua casa. Algumas murchavam como seus dedos em banhos prolongados.

Acordava todo dia e fazia um café que enfeitava todos os cômodos de aroma quente. A casa tomava alguns goles e despertava para o dia inteiro. Algumas vezes ele ligava a TV e o jornal de sempre, com as mesmas notícias inventadas, entrava em seus ouvidos e ficava pela porta da saída. Numa manhã fria resolveu trocar de canal. Na tela Madame Satã pulava em rodopios de capoeira, enfrentando as pessoas que o chamavam de negro, pobre e viado. Entrava onde não o queriam, fazia o que não devia. Dançava enfeitado em delicadeza, acariciava e cuspia. Espancado e preso, não parava, fazia arte, batia, batia. A pele de Tadeu se ouriçava e um arrepio lhe saía da alma e tomava a espinha, os braços e nuca. As palmas das mãos se batem emanando energia e os ombros dançam frente e trás num impulso instintivo. Ele precisava daquilo. Foi varrer a casa, mesmo já de paletó e gravata, e começou a juntar mais e mais sujeira. Ao fim um monte de poeira. Procurou um saco, uma caixa e não achou qualquer coisa. O tapete era enorme e cobria toda a sala de estar. Lá o lixo podia ficar.

Tadeu caminhando pela rua olhou para o relógio de pulso que apertava forte seu braço e viu que 12 minutos lhe restavam. Levantou o dedo para o primeiro motorista de ônibus que o enxergou na parada escondida pela árvore frondosa. Ao pôr a mão no bolso para pegar os centavos da passagem, os dedos se afundam em areia. Assustado ele fecha a mão e traz para perto de si. Uma areia cinza e brilhante escorria por todo seu corpo. Os bolsos repletos do pó o deixavam pesado, ainda mais aquele pequeno bolso que ficava em seu peito suado. Sem poder pagar ele desce e segue a pé, lentamente com um peso enorme e estranho. Estava gordo e cansado. Quando chega ao escritório Tadeu se despe e nu prossegue o dia. Foi difícil enfrentar todos aqueles papéis sem escudo algum, um colete à prova de balas que fosse. Mas o ponteiro conseguiu chegar até as dezessete horas, apesar da lentidão do dia.

Chegou a casa e viu o tapete da sala virar montanha. Toda uma tonelada do mesmo pó cinza se acumulava embaixo daquele veludo de marfim. Um brilho carregado que doía os olhos. O susto foi enorme, mas a diferença era que o cansaço não tinha fim. Dormiu trôpego em um sofá inclinado, com os pés no chão e a cabeça nos mais altos céus.

Acorda com um telefone que parecia gritar em seu ouvido como um machado. Era uma voz que conversava e nas entrelinhas queria um amparo. Tadeu depressa pôs uma roupa e saiu de casa na certeza de encontrar a voz em alguma casa ou qualquer esquina. Parou na banca de revistas e comprou uma carteira de cigarros vazios. Ao invés de nicotina, calafrio. Reconheceu na voz de uma bela moça aquela que o chamava ao telefone. Suas mãos se encontraram e o levaram de volta para casa. Chegando eles sentam no sofá já cinza e ele lembra que se esqueceu do fogo. Com o punho cerrado os dedos dela desabrocham um pedaço vermelho. Isqueiro. Ele pega devagar e fixa seu olhar. Ela o fita, seus olhos se abraçam e ele sente um conforto apesar de sentado no canto mais desagradável de todos. Havia poeira por todos os lados, que pouca gente via. Seu dedo desliza e a faísca nasce apesar da lentidão. Tic-tac. O cigarro acende? Explosão. A poeira virou pólvora, a sujeira solidão.

Tudo se perdeu. Foi-se acumulando, passando e ele sempre esquecendo na gaveta sua atenção. Estava lá agora estraçalhada, aos pedaços, como as outras coisas, mas que podiam ser recuperadas com muito trabalho. O estopim estava em suas mãos e toda bomba-relógio ao seu redor. Algumas vozes o alertaram, até mesmo a sua própria. Mas aquele olhar ao seu lado, intacto e doce, lhe dizia sem palavras, que estava lá sempre, não importava o que acontecesse. Bastava que ele não o implodisse. Mesmo sem nada continuaria ao seu lado direito. As contra-atitudes dependiam de suas ações. Ele conseguia perceber em uma gota que se formava, um amor inteiro que não acabava. Abraçaram-se longamente e perceberam que o tempo era curto pra refazer tudo aquilo antes de qualquer chuva, mas não existia relógio que pudesse contar o arrepio na espinha e o orvalho em canto de olho que sentiam juntos. E era nesse tempo que caminhariam. Eternas aquelas mãos, que mesmo diferentes, nasceram para abrigar-se uma na outra. E mesmo com toda aquela poeira ele sentia que sua palma podia ser estendida àquela voz doce que lhe acariciava todos os dias. Ele iria se levantar, reconstruir, correr, correr, correr, sem desistir. Afinal de contas, já havia ganhado o maior troféu de todos. Restava agora mostrar que merecia.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Invisível Armadura


Após longas batalhas como um novato ingênuo, daqueles que correm com a arma sem olhar para os lados, cheguei aos novos fronts com blindagem na alma e olhos por todo o corpo. Qualquer sopro era motivo de atenção e isso me fez cicatrizar antigas feridas. Essa racionalidade, no entanto, me construiu também muros que empatavam minha visão. Tinha que me lançar ao campo do outro para poder fazer valer a roupa que vestia e o coração que carregava. Os muros dos mais fortes passaram a me seguir como cães vira-latas, cujos olhos pediam comida e carinho.

Uma voz do lado de fora me gritava. Um grito que virava sussurro. Então como se me falasse ao ouvido, com o queixo deitado em meu ombro, escuto reconstrução. A cada passo um pedaço ao meu redor caía, deixando a mostra uma parte do meu corpo. A cada gesto da pessoa ao meu lado, minha invisibilidade se tornava mais terna. Ela continuou lá fora por dias a fio, caminhando ao meu lado, mesmo sem notícias minhas atrás daquelas paredes cegas. Mas foram por aqueles gritos mansos, que pude continuar. Pois apesar de tudo não havia teto que me impedisse de ver aquele céu que as palavras me apontavam. O azul sempre esteve lá como ela. O cheiro de girassol com o rosto para cima inundava aquele quarteirão. O tempo, sem relógios nem pêndulos, passava e voltava ao passado. Memórias iam se acumulando como as armas ao chão.

Um dia, caminhando com o olhar cansado, mas com pálpebras em riste, quando menos esperei, estava nu. A neve se espalhava por todos os lados, as nuvens cinzentas me roubavam o azul e meus pés percebiam estar na mais perigosa área da batalha. Pois foi nesse momento que me senti mais aquecido desde o primeiro tiro, o instante que tudo ao redor se azulava com lâminas vermelhas ao fim do céu e a hora que senti maior segurança desde meu primeiro choro. Mesmo sem nada, minha mão direita foi inundada por outros dedos, que se faziam dez. Eles eram minhas roupas, meus muros, minhas armas, minha comida, meu coração. Com força me apertavam e me cobriam como chuva em terra momentaneamente árida, que aos poucos revia frutos acompanhados de flores. Percebi que do lado de fora eu também tinha a oportunidade de ajudar aquelas mãos que passaram dias me esperando. Mesmo longe foi quem me fizeram pular. Voar. A partir de então podia dar tudo de mim para fazê-las felizes.

Foi aí que pude me dar conta de que não precisava de tantas armas, nem tantos olhos. Precisava de palavras, de formigas, de mãos dadas. E sem aquele imenso medo que carregava no bolso como pedras, pude então avistar outros sóis. Mesmo se às vezes me queimavam, me engrossavam a pele e a coragem. E não me escondia mais, pois ao meu lado despido estava o meu amor com um sorriso ao colo e suas mãos que nunca mais deixariam de me vestir.