domingo, 21 de novembro de 2010


O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
[Manoel de Barros]

sábado, 20 de novembro de 2010


Só a alma atormentada pode trazer para a voz um
formato de pássaro. [Manoel de Barros]

sábado, 13 de novembro de 2010

Roda Gigante


Delicada, como pés de bailarina. Ao fim do espetáculo exibia apenas para si - sua mais exigente platéia - atrás das cortinas negras, os calos endurecidos e o sangue que escorria pelo calcanhar. Mal sabia que ao longe as mãos que aplaudiam mais forte aqueles passos, eram as mesmas que chegariam ao seu corpo no instante de qualquer queda. Sentado na primeira fileira, mas ainda distante dos holofotes, seu sorriso entrava em cena. Apesar de todos os tropeços e abismos, fora o primeiro a chegar e de lá nunca saiu. Permaneceu sentado ao pé do palco. Dançava junto, com olhos fechados, pois dentro do peito o espetáculo não tem fim. Segundo ato. Novos atores, novos passos. E no bolso da camisa um lenço embebido em água salgada, que aos poucos secava, tornando-se agora mais uma peça da armadura. A roda-gigante voltava a funcionar e de cima já se sentia o cheiro de café. Lá o vento é mais forte, onde nenhum concreto o impede de passar. Aquele barulho de velocidade com janela aberta deixava surdos os ouvidos para qualquer grito de aviso. Nenhuma queda o impediria de querer subir cada vez mais. Como fumaça, desfazendo-se ao sabor dos ventos, o cinza agora se confundia com imensidão azul. Saindo do túnel levanta o rosto para enfrentar a multidão. Olé.

sábado, 23 de outubro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Retratos da Memória


“No dia que você quiser lembrar de mim, dá uma olhada no retratinho que a gente tirou junto. Eu digo isso porque tenho medo que um dia você também me esqueça.” (Dora, Central do Brasil)

Os olhos de Dorinha e de Josué enchiam-se de lágrimas, assim como o sorriso enchia-se de satisfação, fazendo tudo transbordar. Junto com os olhos deles, os meus. Aos 12 anos de idade via aquela grande aventura de uma senhora e um menino, com uma atenção sublime, propiciada pela delicadeza da professora Gorete, que exibiu para nós um dos primeiros filmes que me fez arrepiar. Era brasileiro, era uma descoberta.

Revendo tais imagens, agora elas tomam ainda mais força, pois carregam consigo um pedaço de mim. Todas aquelas sensações vem à tona, junto com muitas outras que fui acumulando ao longo das experiências latentes, expostos nas telas e pele. Elas então explodem como calafrios de boas memórias.

Agora Josué correndo atrás do ônibus, afoito, também me remetia à João acelerando sua moto atrás do ônibus de Hermila. As cartas sendo lidas por Dorinha, com suas palavras inventadas para agradar Josué, me lembram o apreço que criei por cartas e vinis. Cartola cantando ao fim, fazia surgir, para mim, um outro ponto final, marcante.

Eles se reencontram sempre no retrato que haviam tirado ao lado de Padre Cícero. Ali, naquela pequena imagem congelada, eles se tocam quando quiserem: podem tirar um ao outro de uma gaveta, do quadro na parede, assanhar a poeira dos cabelos e de repente trazê-lo para os braços, num abraço repentinamente divino.
Se imagens são palavras que nos faltaram, fotografias como essa são a melhor poesia que se pode escutar, deliciar, sentindo cada verso recitado doce ao pé do ouvido.


Outro texto perdido pelas pastas do velho computador. Foi feito no ímpeto de um arrepio, assistindo ao Canal Brasil. Escrito em 18 de abril de 2010.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Terra molhada


Homing Ship. Foto de André Kertész, 1944.

O Barco é imantado para meus olhos e cérebro de ferro. Mesmo quando durmo, ele navega, invadindo o território de sonhos. É ele quem consegue atravessar esses dois mundos e atracar no inconsciente, de forma branda. Sem que eu perceba, ele está lá me sussurrando baixo para embarcar.
Por fora é bonito e forte, mas os botes salva-vidas me alertam que a segurança não é total, como nada na vida. Nada. É que às vezes flashs ingênuos nos passam a cabeça e fazem com que nos joguemos. Faz parte do jogo. Parte.
Temos listras vermelhas e brancas por todo o corpo, como ele já demonstrava em seu nome: alvirrubro. Algumas palavras assopram em meus ouvidos dizendo para não embarcar. Quando olho pros lados apenas espelhos me cumprimentam. Reflexos que me apontam o medo, o cuidado e um passo atrás. A imagem mais forte, no entanto, parece ser da poesia que se ocupa em minha mente. Ela parece carregar um espelho espesso e mais forte, erguido em frente à minha alma.
Então viajo e se for preciso levanto as velas, retiro a âncora cravada em meu corpo e tomo o leme em minhas mãos. Com medo, mas com vento. Vento que seca o suor de minha face como leves carinhos infantis e me impulsiona para a linha azul e tênue, entre o céu e o mar. O mar bravio incita tempestades seguidas de calmarias. Se ficasse apenas na terra nenhuma das duas coisas se apresentaria. Então, por mais que o barco balançasse e subisse em ondas enormes, carregando a espinha de calafrios, a calmaria se fazia em olhares. Em dedos e cabelos. Corpo inteiro.
Estarei preparado. Se cair, ao invés de procurar, desesperado, a superfície, mergulho e abro os olhos para aquele ambiente marinho e silencioso. Lá no fundo não piso a terra, mas acaricio-a com minhas mãos. Embebida em água salgada, passada, és mais doce e tenaz.

Escrito em 14 de Julho. Encontrado e finalizado hoje, 15 de setembro.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Nos braços do tempo



Em terra estrangeira nosso dinheiro não serve para se alimentar. Mas e se já vivo há muito tempo conhecendo a terra por todos as suas entranhas, me sentindo como árvore nela plantada? Existem problemas que nem mesmo quem lá brotou pode resolver, pois essa terra também procura fertilidade. Mas de uma coisa estou certo: Caminharei por todo seu interior e meu suor pingará naquele chão. E por isso não será apenas água que a fará crescer, mas o adubo do meu sal escondido, que carrego como uma tempestade querendo furar o peito. E todos poderão ver e sentir o gosto do fruto nos braços do tempo.

domingo, 20 de junho de 2010

Doce voz ao homem-bomba



Tadeu gostava de perceber as flores que nasciam no caminho, enquanto corria. Notava mais ainda aquelas que surgiam nos mais difíceis cantos de concreto, nos lugares distantes, em viagens ou visitas. Muitas plantas bonitas, no entanto, se enfraqueciam na varanda de sua casa. Algumas murchavam como seus dedos em banhos prolongados.

Acordava todo dia e fazia um café que enfeitava todos os cômodos de aroma quente. A casa tomava alguns goles e despertava para o dia inteiro. Algumas vezes ele ligava a TV e o jornal de sempre, com as mesmas notícias inventadas, entrava em seus ouvidos e ficava pela porta da saída. Numa manhã fria resolveu trocar de canal. Na tela Madame Satã pulava em rodopios de capoeira, enfrentando as pessoas que o chamavam de negro, pobre e viado. Entrava onde não o queriam, fazia o que não devia. Dançava enfeitado em delicadeza, acariciava e cuspia. Espancado e preso, não parava, fazia arte, batia, batia. A pele de Tadeu se ouriçava e um arrepio lhe saía da alma e tomava a espinha, os braços e nuca. As palmas das mãos se batem emanando energia e os ombros dançam frente e trás num impulso instintivo. Ele precisava daquilo. Foi varrer a casa, mesmo já de paletó e gravata, e começou a juntar mais e mais sujeira. Ao fim um monte de poeira. Procurou um saco, uma caixa e não achou qualquer coisa. O tapete era enorme e cobria toda a sala de estar. Lá o lixo podia ficar.

Tadeu caminhando pela rua olhou para o relógio de pulso que apertava forte seu braço e viu que 12 minutos lhe restavam. Levantou o dedo para o primeiro motorista de ônibus que o enxergou na parada escondida pela árvore frondosa. Ao pôr a mão no bolso para pegar os centavos da passagem, os dedos se afundam em areia. Assustado ele fecha a mão e traz para perto de si. Uma areia cinza e brilhante escorria por todo seu corpo. Os bolsos repletos do pó o deixavam pesado, ainda mais aquele pequeno bolso que ficava em seu peito suado. Sem poder pagar ele desce e segue a pé, lentamente com um peso enorme e estranho. Estava gordo e cansado. Quando chega ao escritório Tadeu se despe e nu prossegue o dia. Foi difícil enfrentar todos aqueles papéis sem escudo algum, um colete à prova de balas que fosse. Mas o ponteiro conseguiu chegar até as dezessete horas, apesar da lentidão do dia.

Chegou a casa e viu o tapete da sala virar montanha. Toda uma tonelada do mesmo pó cinza se acumulava embaixo daquele veludo de marfim. Um brilho carregado que doía os olhos. O susto foi enorme, mas a diferença era que o cansaço não tinha fim. Dormiu trôpego em um sofá inclinado, com os pés no chão e a cabeça nos mais altos céus.

Acorda com um telefone que parecia gritar em seu ouvido como um machado. Era uma voz que conversava e nas entrelinhas queria um amparo. Tadeu depressa pôs uma roupa e saiu de casa na certeza de encontrar a voz em alguma casa ou qualquer esquina. Parou na banca de revistas e comprou uma carteira de cigarros vazios. Ao invés de nicotina, calafrio. Reconheceu na voz de uma bela moça aquela que o chamava ao telefone. Suas mãos se encontraram e o levaram de volta para casa. Chegando eles sentam no sofá já cinza e ele lembra que se esqueceu do fogo. Com o punho cerrado os dedos dela desabrocham um pedaço vermelho. Isqueiro. Ele pega devagar e fixa seu olhar. Ela o fita, seus olhos se abraçam e ele sente um conforto apesar de sentado no canto mais desagradável de todos. Havia poeira por todos os lados, que pouca gente via. Seu dedo desliza e a faísca nasce apesar da lentidão. Tic-tac. O cigarro acende? Explosão. A poeira virou pólvora, a sujeira solidão.

Tudo se perdeu. Foi-se acumulando, passando e ele sempre esquecendo na gaveta sua atenção. Estava lá agora estraçalhada, aos pedaços, como as outras coisas, mas que podiam ser recuperadas com muito trabalho. O estopim estava em suas mãos e toda bomba-relógio ao seu redor. Algumas vozes o alertaram, até mesmo a sua própria. Mas aquele olhar ao seu lado, intacto e doce, lhe dizia sem palavras, que estava lá sempre, não importava o que acontecesse. Bastava que ele não o implodisse. Mesmo sem nada continuaria ao seu lado direito. As contra-atitudes dependiam de suas ações. Ele conseguia perceber em uma gota que se formava, um amor inteiro que não acabava. Abraçaram-se longamente e perceberam que o tempo era curto pra refazer tudo aquilo antes de qualquer chuva, mas não existia relógio que pudesse contar o arrepio na espinha e o orvalho em canto de olho que sentiam juntos. E era nesse tempo que caminhariam. Eternas aquelas mãos, que mesmo diferentes, nasceram para abrigar-se uma na outra. E mesmo com toda aquela poeira ele sentia que sua palma podia ser estendida àquela voz doce que lhe acariciava todos os dias. Ele iria se levantar, reconstruir, correr, correr, correr, sem desistir. Afinal de contas, já havia ganhado o maior troféu de todos. Restava agora mostrar que merecia.